"Senhor, fazei-me instrumento de Vossa Paz"
São Francisco de Assis

domingo, 25 de janeiro de 2026

Francisco de Assis ensina: quem reza, serve!




A oração sempre ocupou lugar central na vida cristã, não apenas como devoção, mas como fonte que sustenta e inspira todas as escolhas e ações do discípulo. Desde os antigos mestres espirituais, passando pela experiência de Santo Afonso de Ligório, aprendemos que rezar é reconhecer que “sem mim nada podeis fazer” e pedir o dom do Espírito para viver segundo o Evangelho. São Francisco de Assis é testemunha luminosa dessa verdade: sua profunda vida de oração, feita de silêncio, louvor, escuta e entrega, tornou-se ação concreta, serviço humilde, cuidado dos pequenos e reconstrução da vida dos que sofrem. Por isso, a oração cristã não permanece apenas na interioridade; ela abre o coração, purifica a intenção e conduz ao compromisso real com o Reino de Deus.

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Orar é elevar a mente e o coração a Deus, confiando inteiramente na sua graça. Não se trata de um gesto isolado de devoção, mas da fonte que orienta toda ação cristã. Desde os antigos mestres, como Hugo de São Vítor, e conforme a tradição bíblica do Livro da Sabedoria, entende-se que a oração é o caminho pelo qual se recebe a sabedoria e o Espírito: “Invoquei o Senhor, e veio a mim o espírito da sabedoria.” Hugo recorda que, sem o auxílio divino, a iniciativa humana é insuficiente. A oração, portanto, é o acesso à filiação divina e nos torna capazes de pedir e viver o dom do Espírito. Santo Afonso reforça essa verdade a partir do mandato de Cristo: “Sem mim nada podeis fazer”. A oração não é um adorno religioso, mas a respiração da vida cristã. Quem reza com sinceridade e constância pede, antes de tudo, o dom do Espírito, e desse encontro nascem a fé, a esperança e a caridade autênticas.
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A oração genuína, porém, não se limita ao interior: ela transforma e encaminha para o serviço. Enzo Bianchi e a tradição litúrgica lembram que a liturgia é “parusia antecipada”, sinal do Reino que já vem ao encontro do povo. O ministro, o celebrante e todo cristão só podem comunicar aquilo que carregam no coração: “Se você não estiver evangelizado, não poderá evangelizar; se a Palavra não mora em você, não poderá comunicá-la à assembleia.” São Carlos Borromeu aconselhava os ministros: “Se você administra os sacramentos, medite no que está fazendo. Se celebra a missa, medite no que está oferecendo. Se recita os salmos, medite a quem e do que está falando.” A regra é clara: a liturgia molda o coração para a caridade; a oração prepara e orienta a ação sacramental e pastoral. Orar e celebrar é preparar-se para servir e levar à vida aquilo que a Palavra e os sacramentos suscitam.
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A vida de São Francisco de Assis ilumina essa união inseparável entre contemplação e serviço. Seu Cântico das Criaturas, sua oração diante do crucifixo e sua intimidade com Deus revelam uma espiritualidade que transforma tudo em compaixão e prática solidária. Na prece diante do crucifixo, “Altíssimo, glorioso Deus, ilumina as trevas do meu coração. Dá-me fé reta, esperança certa e caridade perfeita. Dá-me, Senhor, senso e discernimento para que eu cumpra o teu santo e verdadeiro mandamento”, Francisco mostra a prioridade da vida cristã: pedir a graça para viver o Evangelho. Ele viu a criação como “um grande coro de onde brota contínua oração” e fez da atenção aos pobres a consequência necessária dessa experiência contemplativa. Para ele, a oração que não gera partilha não é conforme ao Evangelho: a verdadeira espiritualidade conduz ao encontro dos pequenos, ao cuidado dos leprosos, à partilha do alimento, à presença junto aos marginalizados. A caridade é o fruto visível da alma que reza.
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Praticar a fé significa, portanto, transformar a contemplação em gestos cotidianos: cultivar a Palavra, estudá-la, meditá-la, deixá-la moldar o coração; buscar a reconciliação com Deus e com os irmãos; ajudar os necessitados com partilha e presença; oferecer escuta; promover a comunhão. A Eucaristia, centro da vida cristã, recorda esse movimento: alimentar-se do Corpo do Senhor é assumir a responsabilidade de levar alimento e dignidade aos famintos. A espiritualidade franciscana sublinha que solidariedade é prática de amor: viver a destinação universal dos bens, a fraternidade e a partilha como escolhas diárias. “O que eu tenho, eu dou” resume a decisão de não viver para si, mas para quem precisa.
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Há, portanto, um caminho claro: a oração nos dá o Espírito; o Espírito fecunda a fé; a fé se traduz em obras de amor. Tal percurso exige humildade, ser sinal pobre de Cristo, e coerência litúrgica: a celebração não é espetáculo, mas gesto formativo que converte. Quem preside, canta ou reza os ofícios deve fazê-lo com atenção e reverência, consciente de que a liturgia possui força evangelizadora quando é vivida em adoração. Ao mesmo tempo, a prática cristã é profética: uma espiritualidade que não promove transformação social nem se compromete com a justiça permanece mutilada. A fé que salva é a que humaniza, denuncia injustiças, reconstrói e liberta.
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Concluímos com o mesmo espírito de Francisco, que inspirou gerações: oração e ação são duas faces da mesma vocação. Como escreveu o Poverello pouco antes de morrer: “Irmãos, até agora pouco ou nada fizemos; vamos recomeçar!” Recomeçar na oração, que desarma o ego e prepara o coração; recomeçar na caridade, que torna crível a Palavra de Deus. Orar e praticar é viver a fé como caminho de amor, nas pequenas ações, nas decisões corajosas, na partilha cotidiana, até que o mundo reconheça, em nós, o rosto misericordioso de Deus.

Paz e Bem!
Fr. Augusto Luiz Gabriel

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ano Jubilar Franciscano - Mensagem do Ministro Provincial

 



Neste ano, celebramos os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, que chama a morte de irmã e recorda que ninguém pode dela escapar: 

“Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, 
da qual homem algum pode escapar. 
Felizes os que ela achar 
conformes à tua santíssima vontade, 
porque a morte segunda não lhes fará mal.” 

Nesse contexto, o Papa Leão XIV dirige à Igreja a proclamação de um tempo especial de graça, vivido de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, como convite para aprofundar a fé, buscar uma conversão mais sincera e experimentar renovação espiritual. 

Que este Ano Jubilar Franciscano, nos ajude a retomar o caminho com simplicidade, escuta e fidelidade, inspirados pelo testemunho de São Francisco de Assis. Acompanhe na #TVFranciscanos


A Transformação Impossível de São Francisco de Assis

 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS | Do Luxo à Pobreza Radical Como o filho do homem mais rico de Assis se tornou o santo mais amado da história? Em 1206, Francesco Bernardone chocou a cidade inteira ao ficar nu na praça pública, devolver tudo ao pai, e escolher uma vida de pobreza absoluta. Mas o que levou um jovem festeiro e ambicioso a essa transformação radical? NESTE DOCUMENTÁRIO:
  • A juventude luxuosa de Francisco
  • Sua captura na guerra e crise existencial
  • A voz misteriosa do crucifixo de São Damião
  • O confronto épico com o pai na praça
  • A fundação da Ordem Franciscana
  • O encontro com o Sultão durante as Cruzadas
  • Os estigmas milagrosos no Monte Alverne
  • O legado que atravessou 8 séculos
⛪ Padroeiro: Itália, animais, ecologia

Assis de Francisco e Clara - Lugares de Peregrinação

 

Neste programa Lugares de Peregrinação conheceremos Assis, cidade onde viveu São Francisco e Santa Clara. 
Contemplaremos os lugares que marcaram a vida desses grandes santos, desde o Eremitério dos Carceri, passando pela Basílica de Santa Clara, também pelo local onde nasceu Francisco, sua casa paterna, até chegarmos à belíssima basílica onde repousam seus restos mortais. 
Acompanhe conosco!


domingo, 11 de janeiro de 2026

Papa Leão XIV proclama o Ano Jubilar Franciscano para o 800° ano da morte de São Francisco de Assis


Papa Leão XIV proclama o Ano Jubilar Franciscano para o 800° ano da morte de São Francisco de Assis e concede Indulgência Plenária.

Anunciamos com alegria a promulgação do Decreto que institui um Ano Jubilar especial em comemoração ao oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis. 
Sua Santidade o Papa Leão XIV estabeleceu que este Ano de São Francisco será celebrado de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, durante o qual todos os fiéis cristãos são convidados a seguir o exemplo do Santo de Assis, tornando-se modelos de santidade de vida e incansáveis ​​testemunhas da paz. A Penitenciaria Apostólica concede indulgência plenária, nas condições habituais, a todos os que participarem devotamente deste Jubileu extraordinário, que representa uma continuação ideal do Jubileu Ordinário de 2025.

Este Ano Jubilar é especialmente dirigido aos membros das Famílias Franciscanas da Primeira, Segunda e Terceira Ordens, Regulares e Seculares, bem como aos Institutos de Vida Consagrada, Sociedades de Vida Apostólica e Associações que observam a Regra de São Francisco ou se inspiram em sua espiritualidade. A graça deste ano especial, porém, estende-se também a todos os fiéis, sem distinção, que, com espírito desapegado do pecado, visitarem em peregrinação qualquer igreja conventual franciscana ou lugar de culto dedicado a São Francisco, em qualquer lugar do mundo. Os idosos, os enfermos e aqueles que, por motivos graves, não podem deixar suas casas, também poderão obter indulgência plenária, unindo-se espiritualmente às celebrações jubilares e oferecendo a Deus suas orações, dores e sofrimentos.

Nesta época de celebração, que coroa oito séculos de memória franciscana, convidamos cordialmente todos os fiéis a participarem ativamente deste Jubileu excepcional. Que o exemplo luminoso de São Francisco, que soube tornar-se pobre e humilde para ser um verdadeiro alter Christus na terra, inspire nossos corações a viver em autêntica caridade cristã para com os outros e com sinceros desejos de harmonia e paz entre os povos. Seguindo os passos do Pobrezinho de Assis, transformemos a esperança que nos fez peregrinos durante o Ano Santo no fervor e zelo da caridade ativa.

Via: Frei Francisco



quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Compadre Francisco | Episódio #22

 


TvFranciscanos

Paz e Bem, gente querida! 
Começamos 2026 do jeito certo! 
O primeiro Compadre Francisco do ano chega com fé, música e solidariedade: a bonita tradição da Folia de Reis em Xaxim, o quadro Que t@u com Frei Leandro e uma ação de Natal cheia de humanidade do SEFRAS, em São Paulo. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Despertar para a Vocação Franciscana: Um Caminho de Discernimento



Você sente um chamado especial em seu coração? Uma inquietação que te convida a buscar um sentido mais profundo para sua vida? O caminho vocacional franciscano é uma experiência de encontro com Deus, inspirado no testemunho de São Francisco de Assis, que nos ensina a viver o Evangelho em fraternidade, simplicidade e itinerância.
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Na Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, acreditamos que a vocação é um dom a ser cultivado e discernido com liberdade e maturidade. O Serviço de Animação Vocacional (SAV) está aqui para te acompanhar nessa jornada, ajudando a esclarecer o chamado de Deus em sua vida.O primeiro passo nesse caminho de discernimento é entrar em contato com os frades. Passando pelas etapas de acompanhamento, até a inserção na fraternidade, cada momento é uma oportunidade de aprofundamento na espiritualidade, na vida comunitária e na missão franciscana.
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Nosso itinerário formativo tem início na Animação Vocacional, um tempo de discernimento para os jovens que desejam conhecer melhor a vocação e o jeito de viver a vida consagrada como franciscano. Durante esse período, proporcionamos encontros formativos, momentos de oração e retiro, acompanhamento pessoal. Valorizamos principalmente a experiência de inserção numa Fraternidade Franciscanas para que por meio da convivência fraterna cada vocacionado possa compreender se essa é a sua vocação e com maturidade decidir qual o caminho a seguir.
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Acreditamos que a vocação é um constante recomeçar. São Francisco nos ensina que estamos sempre iniciando nosso caminho com Deus, com humildade e disponibilidade para servi-Lo.
O Serviço de Animação Vocacional (SAV) tem a missão de coordenar e animar o trabalho vocacional nas diferentes frentes da Fraternidade Provincial. A Animação Vocacional, partindo do testemunho de vida dos frades, consiste em sensibilizar o povo de Deus a buscar sua própria vocação no mundo e na Igreja e em suscitar, acolher e apoiar novas vocações para a Ordem dos Frades Menores. Este serviço encontra seu vigor na atualidade e pertinência do ideal evangélico de Francisco de Assis.
Um Convite ao Discernimento

Se você sente em seu coração o desejo de conhecer mais sobre a vida franciscana, queremos caminhar com você! O processo vocacional é um tempo de escuta e descobertas, e estamos aqui para te ajudar nessa jornada.
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Acesse o formulário abaixo e faça sua inscrição para iniciar esse belo caminho de discernimento. Permita-se viver essa experiência de encontro, de partilha e de resposta ao chamado de Deus.
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“Vamos, irmãos, começar a servir ao Senhor nosso Deus, pois até agora pouco ou nada fizemos!” (São Francisco de Assis)
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Venha conhecer mais sobre a vida franciscana e descobrir se esse é o caminho que Deus preparou para você!
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Mais informações sobre vocação franciscana clique: AQUI



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Cantiga da Perfeita Alegria - Coral Cantos da Ilha

 


Cantiga da Perfeita Alegria L & M: Frei Luiz Carlos Susin Arr.: Miguel Philippi Coral Cantos da Ilha Regente: Miguel Philippi Associação Coral Santíssima Trindade Cantores de São Francisco de Assis Coral Nossa Senhora da Lapa - Vozes do Mar Coral Vozes de Jurere


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Dia da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria

 

TvFranciscanos













No dia da Imaculada Conceição, celebramos aquela que, desde o princípio, foi acolhida por Deus como jardim puro e aberto à graça. Maria, a Bem-Aventurada Virgem, é para nós, franciscanos sinal de beleza, humildade e entrega total ao Senhor. 

Em sua vida plena de graça, contemplamos o projeto de Deus realizado no amor; nela, encontramos a Mãe que caminha conosco, inspira nosso serviço e conduz nossos passos à Paz e à Fraternidade. Como Padroeira da nossa Província, ela nos acompanha de modo ainda mais especial neste Ano Jubilar em que celebramos 350 anos de História, Missão e Presença Fraterna. 

Que sua luz nos ajude a viver com simplicidade e confiança, como filhos e filhas que desejam seguir Cristo com o coração livre. Mãe de misericórdia nos fortaleça, ilumine nossos caminhos e rogue por nós, sustentando-nos na graça e na esperança.



Imaculada Conceição - Padroeira e Rainha da Ordem Franciscana

 



Estamos diante de um mistério. Ou seja: diante de um fato que nossa inteligência, por ser conhecidamente limitada, não consegue abranger nem explicar por inteiro. O mistério não contradiz a razão humana, mas a excede.

O privilégio da Imaculada Conceição não se refere ao fato de Maria de Nazaré ter sido virgem antes, durante e depois do parto de Jesus. Não se refere ao fato de ter ela concebido o filho sem o concurso de homem, mas por obra e graça do Espírito Santo. Não se refere ao fato de Maria não ter cometido nenhum dos pecados que nós costumamos fazer, confessar e nos esforçamos por evitar. Refere-se ao fato de Deus havê-la preservado da mancha com que todas as criaturas humanas nascem, mancha herdada do pecado cometido por Adão e Eva. A teologia chama esta mancha de “pecado original”. Original, não porque nascemos como fruto de um ato sexual. Mas original, porque se refere à origem de toda a humanidade, ou seja, aos nossos primeiros pais, que a Bíblia chama de Adão e Eva.

A Sagrada Escritura ensina-nos que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. Não o fez por necessidade, mas num gratuito gesto de amor. Criado por amor, o ser humano estava destinado a uma plena e eterna comunhão com Deus. Comunhão tão íntima e divina, que o próprio Filho de Deus dela poderia participar sem nenhuma diminuição de sua divindade.

Ora, para o Filho de Deus encarnar-se, Deus havia escolhido desde sempre uma mulher e a havia imaginado santíssima, ou seja, adornada com todas as qualidades e belezas do próprio Deus. Para Deus, imaginação e criação é a mesma coisa.

Aconteceu, no entanto, o grande transtorno: nossos primeiros pais, apesar de feitos à imagem e semelhança de Deus, eram criaturas e como criaturas dependiam do Criador. Sua liberdade era a plenitude da liberdade como criaturas. Adão e Eva pecaram, querendo passar da liberdade e santidade de criaturas à liberdade e santidade do Criador, ou seja, quiseram igualar-se a Deus. Pecado de orgulho. Um pecado de desobediência à condição de criaturas, querendo a condição do Criador. Eles quiseram “ser como Deus” (Gn 3,5). Eles quiseram comportar-se como Deus e não como criaturas de Deus.

A Sagrada Escritura fala das consequências dramáticas dessa prepotência dos nossos primeiros pais: embora mantendo a dignidade de imagem e semelhança de Deus, perderam, como diz São Paulo “a graça da santidade original” (Rm 3,23), passaram a ter medo de Deus, perderam o equilíbrio de criaturas, ou seja, foram tomados pelas más inclinações e passaram a sentir em sua consciência a desarmonia e a tensão entre o bem e o mal e a experiência da terrível necessidade de optar entre um e outro, e “a morte entrou na história da humanidade” (Rm 5,12).

Ora, os planos de Deus, ainda que as criaturas os desviem ou quebrem ou não os queiram, acabam se realizando.

Aquela mulher imaginada (criada) por Deus antes do paraíso terrestre, para ser a Mãe do Filho em carne humana, estava isenta do pecado de Adão e Eva. Há, porém, uma verdade de fé professada pela Igreja, que ensina que todas as criaturas humanas são redimidas, sem exceção, exclusivamente pelos méritos de Jesus Cristo. Ora, Maria é uma criatura e não uma deusa. Por isso, também ela deveria ter sido redimida por Jesus.

Os teólogos discutiram durante séculos sobre como Maria poderia ter sido remida. Nunca, nenhum santo Padre duvidou da santidade de Maria, de sua vida puríssima, de seu coração inteiramente voltado para Deus, ou seja, de ser uma mulher “cheia de graça” (Lc 1,28). Mas, ainda que a pudessem imaginar imaculada, havia teólogos que não conseguiam argumentos teológicos suficientes para crê-la isenta do pecado original. Um deles, por exemplo, foi São Bernardo, autor de belíssimos textos sobre Nossa Senhora, insuperável na descrição da maternidade divina de Maria.

Entre os teólogos favoráveis à imaculada conceição de Maria devemos mencionar o Bem-aventurado Duns Scotus, que argumentava assim: Deus podia criá-la sem mancha, porque a Deus nada é impossível (Lc 1,37); convinha que Deus a criasse sem mancha, porque ela estava predestinada a ser a Mãe do Filho de Deus e, portanto, ter todas as qualidades que não obnubilassem o filho; se Deus podia, se convinha, Deus a criou isenta do pecado original, ou seja, imaculada antes, durante e depois de sua conceição no seio de sua mãe.

Em 1615 encontramos o povo de Sevilha, na Espanha, cantando pelas ruas alguns versos, derivados do argumento de Duns Scotus: “Quis e não pôde? Não é Deus / Pôde e não quis? Não é Filho. / Digam, pois, que pôde e quis”.

Também os artistas entraram na procissão dos que louvavam e difundiam a devoção à Imaculada. Nenhum foi tão feliz quanto o espanhol Murillo, falecido em 1682. A ele se atribuem 41 diferentes quadros da Imaculada, inconfundíveis, sempre a Virgem em atitude de assunta, cercada de anjos, a meia lua sob os pés, lembrando de perto a mulher descrita pelo Apocalipse: “revestida de sol, com a lua debaixo dos pés” (Ap 12,1). A lua, por variar tanto, é símbolo da instabilidade humana e das coisas passageiras. Maria foi sempre a mesma, sem nenhum pecado.

“No entanto, escreve o Santo Padre Pio IX, era absolutamente justo que, como tinha um Pai no céu, que os Serafins exaltam como três vezes santo, o Unigênito tivesse também uma Mãe na terra, em quem jamais faltasse o esplendor da santidade. Com efeito, essa doutrina se apossou de tal forma dos corações e da inteligência dos nossos antepassados, que deles se fez ouvir uma singular e maravilhosa linguagem. Muitas vezes se dirigiram à Mãe de Deus como a toda santa, a inocentíssima, a mais pura, santa e alheia a toda mancha de pecado, … mais formosa que a beleza, mais amável que o encanto, mais santa que a santidade, … a sede única das graças do Santíssimo Espírito, sendo, à exceção de Deus, a mais excelente de todos os homens, por natureza, e até mesmo mais que os próprios querubins e serafins. E para a decantarem os céus e a terra não acham palavras que lhes bastem” (Ineffabilis Dei, 31).

No dia 8 de dezembro de 1854, o bem-aventurado Papa Pio IX declarou verdade de fé a conceição imaculada de Maria. O dogma soa assim: “Pela inspiração do Espírito Santo Paráclito, para honra da santa e indivisa Trindade, para glória e adorno da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica e para a propagação da religião católica, com a autoridade de Jesus Cristo, Senhor nosso, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e nossa, declaramos, promulgamos e definimos que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, foi preservada de toda mancha de pecado original, por singular graça e privilégio do Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador dos homens, e que esta doutrina está contida na Revelação Divina, devendo, portanto, ser crida firme e para sempre por todos os fiéis” (Ineffabilis Dei, 42).

Mas a devoção à Imaculada é muito antiga. Basta lembrar que a festa é conhecida já no século VIII. Desde 1263, a Ordem Franciscana celebrou com muita solenidade a Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro de cada ano e costumava cantar a Missa em sua honra aos sábados. Em 1476, o Papa Xisto IV colocou a festa no calendário litúrgico da Igreja. Em 1484, Santa Beatriz da Silva, filha de pais portugueses, fundou uma Ordem contemplativa de mulheres, conhecidas como Irmãs Concepcionistas, para venerar especialmente e difundir o privilégio mariano da Imaculada Conceição de Maria, Mãe de Deus.

Desde a proclamação do dogma, a festa da Imaculada Conceição passou a ser dia santo de preceito. Em Roma, na Praça Espanha, para perenizar publicamente a declaração do dogma, levantou-se uma belíssima e trabalhada coluna encimada pela estátua da Imaculada Conceição. Todos os anos, no dia 8 de dezembro à tarde, o Papa costuma ir à Praça e com o povo romano e os peregrinos reverenciar o privilégio da imaculada conceição da santíssima Virgem, privilégio que deriva de seu título maior: ser a Mãe do Filho de Deus Salvador.

Nem quatro anos depois de proclamado o dogma, em Lourdes, na França, à menina Bernardete, simples e analfabeta, que perguntava insistentemente à visão quem era ela, recebeu como resposta, cercada de terníssimo sorriso: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

Não podemos esquecer que a estátua de Nossa Senhora Aparecida é uma Imaculada Conceição e por isso mesmo seu título oficial é Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Como é bonito, piedoso e comovente escutar o povo brasileiro cantando uníssono: Viva a Mãe de Deus e nossa / sem pecado concebida! / salve, Virgem Imaculada, / ó Senhora Aparecida!

Frei Clarêncio Neotti, OFM


domingo, 30 de novembro de 2025

Um ano Barco Hospital São João XXIII

 




Há histórias que já nascem com cheiro de futuro. O Barco Hospital São João XXIII é uma delas. Há um ano, ele desceu pelas águas do Amazonas como quem leva consigo uma promessa: alcançar quem vive longe de tudo, mas que jamais deveria estar distante do cuidado. . Neste episódio especial, revisitamos essa travessia que não é apenas geográfica, mas profundamente humana. Voltamos às comunidades ribeirinhas, às filas de atendimentos, aos sorrisos silenciosos de gratidão. Recordamos voluntários, profissionais, parceiros e todos que acreditam que a saúde deve navegar até onde o mapa insiste em ser desafiador. . É um ano marcado por milhares de atendimentos, vidas tocadas, histórias reescritas. Um ano em que o São João XXIII se tornou mais do que uma embarcação: virou símbolo de esperança em movimento. . Venha conosco nessa celebração — feita de fé, trabalho, ciência e compaixão. Porque quando a Providência encontra o coração humano, até o rio aprende a cantar.


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Compromisso cristão com a justiça, a compaixão e o cuidado com quem mais precisa!

 


Mensagem no dia 16/11/2025

Inspirado em duas frases de #SãoTiago, frei Melo nos convida a uma reflexão profunda sobre a essência do Evangelho: o exemplo de Jesus Cristo na Terra como caminho para a nossa ação concreta junto aos irmãos e irmãs empobrecidos.
Assista ao vídeo e confira essa mensagem que nos lembra do compromisso cristão com a justiça, a compaixão e o cuidado com quem mais precisa! 🙏🏻
#Sefras #DiaMundialDosPobres #Evangelho #Jesus #Fé #Reflexão #Solidariedade


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Vídeo e letra: O Cântico do irmão sol(Ou cântico das criaturas)





O Cântico do irmão sol
 São Francisco  de Assis

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.  
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo é a imagem.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo
Pela qual às tuas criaturas dás sustento.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Bem aventurados os que sustentam a paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.
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Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes á tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!
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Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

sábado, 22 de novembro de 2025

Santo Cecília - é celebrada como padroeira da música e do canto sacro.

 


O nome Cecília vem de “coeli lilia”, “lírio do céu”, ou de “caecis via”, “caminho dos cegos”, ou de “coelho lya”, “ligada ao céu”.

Cecília, virgem notável, de nobre família romana, educada desde o berço na fé em Cristo, sempre levava no peito o evangelho de Cristo e dia e noite, incessantemente, conversava com Deus, rezava e pedia ao Senhor que lhe conservasse a virgindade. Os pais, acreditando que ela mudaria de ideia, acertaram seu casamento com Valeriano, também da nobreza romana. Ao receber a triste notícia, Cecília rezou pedindo proteção do seu anjo da guarda, de Maria e de Deus, para não romper com o voto.

Após as núpcias, Cecília contou ao marido que era cristã e do seu compromisso de castidade. Disse, ainda, que para isso estava sob a guarda de um anjo. Valeriano ficou comovido com a sinceridade da esposa e prometeu também proteger sua pureza. Mas para isso queria ver tal anjo. Ela o aconselhou a visitar o papa Urbano, que, devido à perseguição, estava refugiado nas catacumbas. O jovem esposo foi acompanhado de seu irmão Tibúrcio, ficou sabendo que antes era preciso acreditar na Palavra. Os dois ouviram a longa pregação e, no final, converteram-se e foram batizados. Valeriano cumpriu a promessa. Depois, um dia, ao chegar em casa, viu Cecília rezando e, ao seu lado, o anjo da guarda.

Entretanto a denúncia de que Cecília era cristã e da conversão do marido e do cunhado chegou às autoridades romanas. Os três foram presos, ela em sua casa, os dois, quando ajudavam a sepultar os corpos dos mártires nas catacumbas. Julgados, recusaram-se a renegar a fé e foram decapitados. Primeiro, Valeriano e Turíbio, por último, Cecília.

O prefeito de Roma falou com ela em consideração às famílias ilustres a que pertenciam, e exigiu que abandonassem a religião, sob pena de morte. Como Cecília se negou, foi colocada no próprio balneário do seu palacete, para morrer asfixiada pelos vapores. Mas saiu ilesa. Então foi tentada a decapitação. O carrasco a golpeou três vezes e, mesmo assim, sua cabeça permaneceu ligada ao corpo. Mortalmente ferida, ficou no chão três dias, durante os quais animou os cristãos que foram vê-la a não renegarem a fé. Os soldados pagãos que presenciaram tudo se converteram.

O seu corpo foi enterrado nas catacumbas romanas. Mais tarde, devido às sucessivas invasões ocorridas em Roma, as relíquias de vários mártires sepultadas lá foram trasladadas para inúmeras igrejas. As suas, entretanto, permaneceram perdidas naquelas ruínas por muitos séculos. Mas no terreno do seu antigo palácio foi construída a igreja de Santa Cecília, onde era celebrada a sua memória no dia 22 de novembro já no século VI.

Entre os anos 817 e 824, o papa Pascoal I teve uma visão de santa Cecília e o seu caixão foi encontrado e aberto. E constatou-se, então, que seu corpo permanecera intacto. Depois, foi fechado e colocado numa urna de mármore sob o altar daquela igreja dedicada a ela. Outros séculos se passaram. Em 1559, o cardeal Sfondrati ordenou nova abertura do esquife e viu-se que o corpo permanecia da mesma forma.

A devoção a sua santidade avançou pelos séculos sempre acompanhada de incontáveis milagres. Santa Cecília é uma das mais veneradas pelos fiéis cristãos, do Ocidente e do Oriente, na sua tradicional festa do dia 22 de novembro. O seu nome vem citado no cânon da missa e desde o século XV é celebrada como padroeira da música e do canto sacro.

A Igreja também celebra hoje a memória dos santos: Áfia e Pragmácio.



domingo, 2 de novembro de 2025

Todos os Finados

 



São Francisco de Assis, segundo o seu biógrafo Tomas de Celano, chegava a convidar para louvor até a própria morte, que todos temem e abominam. Para ele, a morte não era a negação total da vida, mas a passagem para o modo de vida em Deus, novo e definitivo, imortal e pleno.

É assim também que os cristãos veem a morte. Dando sua vida em sacrifício e experimentando a morte, e morte na cruz, Cristo ressuscitou e salvou toda a humanidade. Esse é o mistério pascal de Cristo: morte e ressurreição. Ele nos garantiu que, para quem crê, for batizado e seguir seus ensinamentos, a morte é apenas a porta de entrada para desfrutar com ele a vida eterna no Reino do Pai. Por isso, São Francisco chama a morte de “Irmã Morte” no Cântico do Irmão Sol.

Encontramos a celebração da missa pelos mortos desde o século V. Santo Isidoro de Sevilha, que presidiu dois concílios importantes, confirmou o culto no século VII. Tempos depois, em 998, por determinação do abade santo Odilo, abade de Cluny, todos os conventos beneditinos passaram, oficialmente, a celebrar “o dia de todas as almas”, que já ocorria na comunidade no dia seguinte à festa de Todos os Santos. A partir de então, a data ganhou expressão em todo o mundo cristão.

Em 1311, Roma incluiu, definitivamente, o dia 2 de novembro no calendário litúrgico da Igreja para celebrar “Todos os Finados”. Neste dia, a Igreja autoriza cada sacerdote a celebrar três Missas especiais pelos fiéis defuntos. Essa prática remonta ao ano de 1915, quando, durante a Primeira Guerra Mundial, o Papa Bento XV julgou oportuno estender a toda Igreja esse privilégio de que gozavam a Espanha, Portugal e a América Latina desde o séc. XVIII.

Acompanhe a reflexão do Papa Bento XVI:


Depois de ter celebrado a Solenidade de Todos os Santos, hoje a Igreja convida-nos a comemorar todos os fiéis defuntos, a dirigir o nosso olhar para os numerosos rostos que nos precederam e que concluíram o caminho terreno. A realidade da morte para nós, cristãos, é iluminada pela Ressurreição de Cristo, e para renovar a nossa fé na vida eterna.

Nestes dias vamos ao cemitério para rezar pelas pessoas queridas que nos deixaram; é quase como ir visitá-las para lhes manifestar, mais uma vez, o nosso carinho, para as sentir ainda próximas, recordando também, deste modo, um artigo do Credo: na comunhão dos Santos há um vínculo estreito entre nós que ainda caminhamos nesta terra e muitos irmãos e irmãs que já alcançaram a eternidade.

Desde sempre, o homem preocupou-se pelos seus mortos e procurou conferir-lhes uma espécie de segunda vida, através da atenção, do cuidado e do carinho. De certa maneira, deseja-se conservar a sua experiência de vida; e, paradoxalmente, como eles viveram, o que amaram, o que temeram e o que detestaram, nós descobrimo-lo precisamente a partir dos túmulos, diante dos quais se apinham recordações. Estas são como que um espelho do seu mundo.

Por que é assim? Porque, não obstante a morte seja com frequência um tema quase proibido na nossa sociedade, e haja a tentativa contínua de eliminar da nossa mente até o pensamento da morte, ela diz respeito a cada um de nós, refere-se ao homem de todos os tempos e de todos os espaços. E diante deste mistério todos, também inconscientemente, procuramos algo que nos convide a esperar, um sinal que nos dê consolação, que abra algum horizonte, que ofereça ainda um futuro. Na realidade, o caminho da morte é uma senda da esperança, e percorrer os nossos cemitérios, como também ler as inscrições sobre os túmulos é realizar um caminho marcado pela esperança de eternidade.

Mas perguntamo-nos: por que sentimos medo diante da morte? 

Por que motivo uma boa parte da humanidade nunca se resignou a acreditar que para além dela não existe simplesmente o nada? 
Diria que as respostas são múltiplas: temos medo diante da morte, porque temos medo do nada, este partir rumo a algo que não conhecemos, que nos é desconhecido. E então em nós existe um sentido de rejeição, porque não podemos aceitar que tudo quanto de belo e grande foi realizado durante uma existência inteira seja repentinamente eliminado e precipite no abismo no nada. Sobretudo, nós sentimos que o amor evoca e exige a eternidade, e não é possível aceitar que ele seja destruído pela morte num só instante.

Além disso, temos medo diante da morte porque, quando nos encontramos próximos do fim da existência, há a percepção de que existe um juízo sobre as nossas obras, sobre o modo como conduzimos a nossa vida, principalmente sobre aqueles pontos de sombra que, com habilidade, muitas vezes sabemos anular ou tentamos remover da nossa consciência. Diria que precisamente a questão do juízo está com frequência subjacente ao cuidado do homem de todos os tempos pelos finados, a atenção pelas pessoas que foram significativas para ele e que não estão mais ao seu lado no caminho da vida terrena. Num certo sentido, os gestos de carinho e de amor que circundam o defunto constituem um modo para o proteger, na convicção de que eles não permaneçam sem efeito na hora do juízo. Podemos ver isto na maior parte das culturas que caracterizam a história do homem.

Hoje, o mundo tornou-se, pelo menos aparentemente, muito mais racional, ou melhor, difundiu-se a tendência a pensar que cada realidade deve ser enfrentada com os critérios da ciência experimental, e que também à grandiosa interrogação da morte é necessário responder não tanto com a fé, mas a partir de conhecimentos experimentais, empíricos. Porém, não nos damos conta de modo suficiente, de que precisamente desta maneira terminamos por cair em formas de espiritismo, na tentativa de manter algum contato com o mundo para além da morte, quase imaginando que existe uma realidade que, no final, seria uma réplica da vida presente.

A Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fiéis defuntos dizem-nos que somente quem pode reconhecer uma grande esperança na morte, pode também levar uma vida a partir da esperança. Se nós reduzirmos o homem exclusivamente à sua dimensão horizontal, àquilo que se pode sentir de forma empírica, a própria vida perde o seu profundo sentido. O homem tem necessidade de eternidade, e para ele qualquer outra esperança é demasiado breve, é demasiado limitada. O homem só é explicável, se existir um Amor que supere todo o isolamento, também o da morte, numa totalidade que transcenda até o espaço e o tempo. O homem só é explicável, só encontra o seu sentido mais profundo, se Deus existir. E nós sabemos que Deus saiu do seu afastamento e fez-se próximo, entrou na nossa vida e diz-nos: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá» (Jo 11, 25-26).

Pensemos por um momento na cena do Calvário e voltemos a ouvir as palavras que Jesus, do alto da Cruz, dirige ao malfeitor crucificado à sua direita: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Pensemos nos dois discípulos no caminho de Emaús quando, depois de terem percorrido um trecho da estrada com Jesus Ressuscitado, O reconhecem e, sem hesitar, partem rumo a Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 24, 13-35). Voltam à mente com clareza renovada as palavras do Mestre: «Jesus continuou dizendo: «Não fique perturbado o coração de vocês. Acreditem em Deus e acreditem também em mim. 2 Existem muitas moradas na casa de meu Pai. Se não fosse assim, eu lhes teria dito, porque vou preparar um lugar para vocês» (Jo 14, 1-2). Deus revelou-se verdadeiramente, tornou-se acessível e amou de tal modo o mundo, «que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16), e no supremo gesto de amor da Cruz, mergulhando no abismo da morte, venceu-a, ressuscitou e abriu também para nós as portas da eternidade. Cristo sustém-nos através da noite da morte que Ele mesmo atravessou; é o Bom Pastor, a cuja guia podemos confiar sem qualquer temor, porque Ele conhece bem o caminho, até através da obscuridade.

Cada domingo, recitando o Credo, nós confirmamos esta verdade. E visitando os cemitérios para rezar com afeto e com amor pelos nossos defuntos, somos convidados, mais uma vez, a renovar com coragem e com força a nossa fé na vida eterna, aliás, a viver com esta grande esperança e testemunhá-la ao mundo: por detrás do presente não existe o nada. E é precisamente a fé na vida eterna que confere ao cristão a coragem de amar ainda mais intensamente esta nossa terra e de trabalhar para lhe construir um futuro, para lhe dar uma esperança verdadeira e segura.