"SENHOR, FAZEI-ME INSTRUMENTO DE VOSSA PAZ".

Sua maior intenção, seu desejo principal e plano supremo era observar o Evangelho em tudo e por tudo,imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina". (Vida de S. Francisco - 1Cel 84)

"Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você está fazendo o impossível.São Francisco de Assis"

domingo, 3 de outubro de 2010

Carta a todos os Fiéis


 

Escrito por São Francisco de Assis.

Primeira redação

Estas são as palavras da vida e da salvação: quem as ler e praticar, tem a vida e a salvação do Senhor

I. Os que fazem Penitência

Em nome do Senhor!

A todos os que amam o Senhor com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento, com todas as suas forças (Mt 12, 30), e amam o seu próximo como a si mesmos (Mt 22, 39); e aborrecem seus próprios corpos com seus vícios e pecados; e recebem o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e fazem dignos frutos de penitência; Oh! quão felizes e benditos são os homens e mulheres que praticam estas coisas e perseveram nelas! porque repousará sobre eles o espírito do Senhor (Is 11, 2) e neles estabelecerá a sua morada e mansão (Jo 14, 23);  e são filhos do Pai celeste (Mt 5, 45), cujas obras fazem; e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 12, 50).
Somos esposos, quando pelo Espírito Santo a alma se une a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando cumprimos a vontade de seu Pai que está nos céus (Mt 12, 50); somos suas mães, quando o levamos no coração e no corpo (1Cor 6, 20) pelo divino amor e pela pura e sincera consciência, e quando o damos à luz pelas santas obras, que devem brilhar aos olhos de todos para seu exemplo (Mt 5, 16).

Oh! como é glorioso ter no céu um Pai santo e grande! Oh! como é santo ter um tal esposo, consolador, belo e admirável! Oh! como é santo e amável ter um tal irmão e um tal filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais que tudo desejável, Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu a vida pelas suas ovelhas (Jo 10,15) e orou ao Pai, dizendo:
Pai santo, guarda em teu nome (Jo 17, 11) aqueles que me deste no mundo; eram teus e tu mos deste (Jo 17, 6). As palavras que me deste a eles as dei, e eles receberam-nas e reconheceram que, na verdade, eu vim de ti e reconheceram que tu me enviaste (Jo 17, 8). Rogo por eles, não rogo pelo mundo (Jo 17, 9). Abençoa-os e santifica-os (Jo 17, 17); também eu me santifico a mim mesmo por eles (Jo 17, 19). Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão-de crer em mim (Jo 17, 20), para que sejam perfeitos na unidade (Jo 17, 23), assim como nós o somos (Jo 17, 11). E quero, Pai, que, onde eu estiver estejam eles também comigo, para que vejam a minha glória (Jo 17, 24) no teu reino (Mt 20, 21). Amen.

II. Os que não fazem Penitência

Porém todos aqueles que não vivem em penitência; e não recebem o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e sustentam vícios e pecados; e correm atrás das más concupiscências e maus desejos da sua carne e não guardam o que prometeram ao Senhor; e com o seu corpo são escravos do mundo pelos desejos carnais, pelas solicitudes deste século e pelas preocupações desta vida; seduzidos pelo diabo, de quem são filhos e cujas obras praticam (Jo 8, 41), todos esses são cegos, porque não vêem a luz verdadeira, que é nosso Senhor Jesus Cristo.

Não possuem a sabedoria do espírito, porque não têm em si o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai. Destes foi dito: A sua sabedoria desvaneceu-se (Sl 106, 27); e: Malditos aqueles que se afastam dos teus mandamentos (Sl 118, 21). Vêem e conhecem, sabem e fazem o mal, e deliberadamente perdem as suas almas.

Olhai, ó cegos, que andais enganados pelos vossos inimigos, a carne, o mundo e o diabo, porque ao corpo agrada cometer o pecado e repugna servir a Deus; pois que todos os vícios e pecados brotam e procedem do coração do homem, como diz o Senhor no Evangelho (Mc 7, 21).

E nada tendes neste século nem no vindouro.

Pensais possuir por muito tempo as vaidades deste mundo, mas estais enganados, porque virão o dia e a hora que não suspeitais, que desconheceis e ignorais. E então o corpo debilita-se, aproxima-se a morte, e assim se morre de morte amarga.

E onde, quando e como quer que o homem morra em pecado mortal sem penitência e sem satisfação, e, podendo satisfazer o não faz, o diabo arrebata-lhe a alma do corpo com tão grande angústia e tribulação, que ninguém pode conhecê-las, a não ser quem as experimenta.

E todos os talentos e poder, ciência e sabedoria, que julgavam ter, lhes serão tirados (Lc 8, 18; Mc 4, 25).

E deixam os bens aos parentes e amigos, que os levam e dividem e depois dizem: Maldita seja a sua alma, porque mais nos pudera ter deixado e ter ganhado mais do que ganhou.

O corpo torna-se pasto dos vermes e, assim, perdem corpo e alma nesta vida que é breve, e cairão no inferno, onde eternamente serão atormentados.


III. Última recomendação

A todos aqueles a quem chegar esta carta, rogamos, pela caridade que é Deus (1Jo 4, 16), que benignamente acolham as sobreditas odoríferas palavras de nosso Senhor Jesus Cristo. E aqueles que não sabem ler, peçam a outros que lhas leiam com frequência; e tenham-nas sempre presentes até ao fim mediante a prática de obras santas, porque são espírito e vida (Jo 6, 64).

E os que assim não fizerem terão de prestar contas, no dia do juízo (Mt 12, 36), perante o tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 14, 10).

Carta a todos os Fiéis
Escrito por São Francisco de Assis.
SEGUNDA REDAÇÃO


Em nome do Senhor, Pai e Filho e Espírito Santo. Amem.

A todos os cristãos, religiosos, clérigos e leigos, homens e mulheres, a todos os que habitam pelo mundo além, o irmão Francisco, seu servo e súbdito, envia reverentes saudações, paz verdadeira do céu e caridade sincera no Senhor.
Como servo de todos, a todos tenho obrigação de servir e ministrar as palavras do meu Senhor, cheias de suave perfume. E considerando comigo que, devido às enfermidades e fraqueza do meu corpo, me é impossível visitar pessoalmente a cada um de vós, resolvi comunicar-vos, por meio desta carta e de mensageiros, as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Verbo do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida (Jo 6, 64).

1. A Palavra do Pai

O Pai altíssimo, pelo seu arcanjo S. Gabriel, anunciou à santa e gloriosa Virgem Maria (Lc 1, 31), que esse Verbo do mesmo Pai, tão digno, tão santo e glorioso, ia descer do céu, a tomar a carne verdadeira da nossa humana fragilidade em suas entranhas. E sendo Ele mais rico do que tudo (2 Cor 8, 9), quis, no entanto, com sua Mãe bem-aventurada, escolher vida de pobreza.
E ao aproximar-se a sua Paixão, celebrou a Páscoa com seus discípulos, e tomando o pão, deu graças e o abençoou e partiu, dizendo: Tomai e comei, isto é o meu corpo (Mt 26, 26). E tomando o cálice, disse: Este é o meu sangue da nova Aliança, que por vós e por muitos vai ser derramado, para remissão dos pecados (Mt 26, 26-28). E depois orou ao Pai, dizendo: Pai, se é possível, passe de mim este cálice (Mt 26, 39). E sobreveio-lhe um suor como de gotas de sangue, que escorria até ao chão (Lc 22, 44). Pôs, todavia, a sua vontade na vontade do Pai, dizendo: Pai, faça-se a tua vontade, não como eu quero, mas como tu queres (Mt 26, 39).

Ora, a vontade do Pai foi esta: Que seu Filho, bendito e glorioso, que ele nos havia dado e que por nós nascera, se oferecesse, por seu próprio sangue, como sacrifício e hóstia, no altar da cruz; não por si mesmo, por quem todas as coisas foram feitas (Jo 1, 3), mas pelos nossos pecados, deixando-nos seu exemplo, para seguirmos seus passos (1Ped, 2-21). E quer que todos sejamos salvos por ele, e que o recebamos com um coração puro e num corpo casto. Todavia, poucos são os que o querem receber e ser salvos por ele, não obstante o seu jugo ser suave e o seu peso leve (Mt 11, 30).

2. Malditos os que recusam os mandamentos; benditos os que os cumprem.

Os que se recusam provar como o Senhor é suave (Sl 33, 9) e mais amam as trevas do que a luz (Jo 3, 19), negando-se a cumprir os mandamentos de Deus, têm a sua maldição. Deles foi dito pelo Profeta: Malditos os que se apartam dos teus mandamentos (Sl 118, 21). Pelo contrário, que felizes e benditos são os que amam o Senhor, e praticam o que o mesmo Senhor diz no Evangelho: Amarás ao Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, e ao teu próximo como a ti mesmo (Mt 22, 37 e 39).

3. Amemos e adoremos a Deus

Sim, amemos a Deus e adoremo-lo com um coração puro e alma simples, porque é isso o que ele mais que tudo deseja quando afirma: Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade (Jo 4, 23). Porque todos os que o adoram, devem adorá-lo em espírito e verdade (Jo 4, 24). Dia e noite lhe dirijamos louvores e preces, dizendo: Pai nosso, que estais nos céus, porque importa orar sempre e sem cessar (Lc 18,1).

4. Da confissão e comunhão

Devemos, além disso, confessar ao sacerdote todos os nossos pecados, e receber de suas mãos o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem não come a sua carne e não bebe o seu sangue, não pode entrar no reino de Deus (Jo 3, 5). Mas coma e beba dignamente, porque quem indignamente o recebe, come e bebe a sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor (1Cor 11, 29), isto é, não o distinguindo dos outros alimentos. E façamos dignos frutos de penitência (Lc 3, 8). E amemos ao nosso próximo como a nós mesmos (Mt Z2, 39). E quem não quiser ou puder amá-lo como a si mesmo, ao menos não lhe faça mal, mas, sim, lhe faça bem.

5. Da misericórdia dos poderosos e do valor da esmola

Os que receberam o poder de julgar os outros, julguem-nos com misericórdia, como querem que o Senhor os julgue a eles. Porque sem misericórdia será julgado aquele que não usou de misericórdia (Tg 2, 13). Sejamos, pois, caridosos e humildes, e demos esmola, porque a esmola lava as almas das imundícies do pecado (Tb 31 31 4, 11). Os homens, de verdade, perdem tudo o que neste mundo deixam, mas levam consigo o preço da sua caridade e as esmolas que houverem feito, e delas receberão do Senhor recompensa e digna remuneração.

6. Do jejum corporal e da penitência (4)

Devemos também jejuar e abster-nos de vícios e pecados (Ecl 3, 32) e de excessos na comida e na bebida. Devemos ser católicos; frequentar as igrejas e reverenciar os sacerdotes, não tanto por si, se são pecadores, mas pelo ofício que têm de administrar o santíssimo Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que eles sacrificam no altar, e recebem e distribuem aos demais.
E firmemente nos compenetremos disto: Que ninguém se pode salvar, senão pelo Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo e pelas santas palavras do Senhor, que os sacerdotes proclamam, pregam e administram, e só a eles pertence administrar e não aos outros.
E de um modo especial os religiosos que renunciaram ao mundo, lembrem-se que estão obrigados a fazer mais e melhores coisas, sem no entanto omitir as demais (Lc 11, 42).

7. Da negação de si mesmo, do amor aos inimigos e da obediência

Devemos aborrecer o nosso corpo com seus vícios e pecados, pois o Senhor diz no Evangelho que todos os vícios e pecados procedem do coração (Mt 15, 38 18-19; Mc 7, 23).
Devemos amar aos nossos inimigos, e fazer bem àqueles que nos odeiam (Mt 5, 44; Lc 6, 27).

Devemos observar os preceitos e conselhos de nosso Senhor Jesus Cristo.

Devemos, além disso, renunciar a nós mesmos e submeter o nosso corpo ao jugo da servidão e da santa obediência, conforme prometemos ao Senhor. Mas ninguém está obrigado por obediência a obedecer àquele que lhe manda o que é pecado ou delito.

8. Da autoridade como serviço
Porém, aquele que tem ofício para ser obedecido, e que é tido por maior em dignidade, seja como menor (Lc 22, 26) e servo dos demais irmãos e use com eles de misericórdia, como quereria que com ele usassem, se estivesse no lugar deles. Nem, pelo pecado de um irmão, contra ele se irrite, mas, com toda a paciência e humildade, bondosamente o admoeste e encoraje.

9. De como cada um se deve julgar
Não devemos ser sábios e prudentes segundo a carne (1Cor 1, 26), mas procuremos, sim, ser simples, humildes e puros. E façamos de nossos corpos objecto de opróbrio e desprezo, porque todos, por nossos pecados, somos desgraçados e pútridos, fétidos e vermes, como diz o Senhor pelo Profeta: Eu sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o rebotalho da plebe (Sl 21, 7). Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser servos e sujeitos a toda a humana criatura por amor de Deus (Pe 2, 13).

10. Da felicidade dos filhos de Deus
E todos os que assim procederem, e perseverarem até ao fim, sobre eles repoisará o espírito do Senhor (Is 11, 2) e neles fará morada e mansão (Jo 14, 23). E serão filhos do Pai celeste (Mt 5, 45), cujas obras fazem. E são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo.
Somos esposos, quando pelo Espírito Santo a alma se une a Jesus Cristo.
Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do seu Pai que está nos céus (Mt 12, 50).
Somos suas mães, quando o levamos no nosso coração e no nosso corpo, pelo amor e pela pura e sincera consciência, e o damos à luz pelas santas obras que devem brilhar aos olhos dos outros para seu exemplo (Mt 5, 6).
Oh! como é glorioso ter no céu um Pai santo e grande!
Oh! como é santo ter um esposo consolador formoso e admirável!
Oh! como é santo e agradável ter um tal irmão e filho, aprazível, humilde, pacífico, doce e mais que tudo desejável, que deu a vida pelas suas ovelhas (Jo 10, 15), e por nós pediu ao Pai, dizendo: Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste (Jo 17, 11). Pai todos os que me deste no mundo, eram teus, e tu mos deste (Jo 17, 6). E as palavras que tu me deste, a eles as dei; e eles as receberam e ficaram sabendo que, de verdade, eu vim de ti, e creram que tu me enviaste (Jo 17, 8). Rogo por eles, não pelo mundo (Jo 17, 9); abençoa-os e santifica-os (Jo 17, 17). Também eu por eles me santifico, para que sejam santificados (Jo 17, 19) na unidade, como nós o somos (Jo 17, 11). E, Pai, eu quero que onde eu estou, ali estejam eles comigo, para que vejam a minha glória (Jo 17, 24) no teu reino (Mt 20, 21).
E, pois, tanto sofreu por nós e tantos bens nos deu e de futuro nos dará, que toda a criatura no céu e na terra e no mar e nos abismos, renda a Deus louvor, glória e honra e bênção (Ap 5, 13); porque é ele a nossa virtude e fortaleza, ele que só é o bom (Lc 18, 19), ele só o altíssimo, ele só o omnipotente e admirável e glorioso, ele só o santo, louvável e bendito por séculos dos séculos sem fim. Amen.

11. Dos que não fazem Penitência
Mas todos aqueles que não vivem em penitência, e não recebem o Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, antes, sim, vivem em vícios e pecados; e que correm atrás das más concupiscências e maus desejos e não cumprem o que prometeram; e com seu corpo são escravos do mundo e dos desejos carnais e dos cuidados e solicitudes deste século e das preocupações desta vida, enganados pelo demónio, de quem são filhos e cujas obras fazem (Jo 8, 41), esses todos são cegos, porque não vêem a luz verdadeira que é nosso Senhor Jesus Cristo. Não têm sabedoria espiritual, porque não têm em si o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai. Deles foi dito: A sua sabedoria foi devorada (Sl 106, 27). Vêem, conhecem, sabem, e todavia fazem o mal e deliberadamente perdem as suas almas.
Olhai, ó cegos enganados pelos vossos inimigos que são a carne, o mundo e o demónio, que, se é doce praticar o pecado e amargo servir a Deus, é porque do coração dos homem brotam e procedem (Mc 7, 21. 23) todos os vícios e pecados, conforme se diz no Evangelho. E nenhum bem possuís neste mundo nem no outro. Julgais que haveis de possuir por muito tempo as vaidades deste mundo, e estais enganados, porque virá o dia e a hora em que não pensais, e que desconheceis e ignorais.

12. Dos doentes que não fazem penitência
E então o corpo vos cairá doente, a morte avança, vêm os parentes e amigos e dizem:
- Faz as tuas últimas disposições.

E a esposa e os filhos, e os parentes e amigos, fingem que choram. Ele olha e, vendo-os a chorar, levado de um mau impulso, pensando dentro de si, diz:
- Eis que deixo em vossas mãos a minha alma, o meu corpo e tudo quanto possuo.

É na verdade maldito esse homem que confia e põe em tais mãos a sua alma e o seu corpo e os seus bens, pois dele diz o Senhor pelo profeta: Maldito o homem que confia noutro homem (Jr 17, 5).
Mandam então vir o sacerdote e este pergunta-lhe:
- Queres receber a penitência de todos os teus pecados?
E ele responde:
- Quero, sim.
- Queres satisfazer pelas faltas cometidas, reparar as injustiças e fraudes com os teus bens, conforme possas?
E ele responde:
- Não!
E pergunta o sacerdote:
- Porque não?
- Porque tudo deixei nas mãos de meus parentes e amigos.
E começa de perder a fala, e assim se fina aquele infeliz.
Pois saibam todos que, de qualquer maneira e seja onde for que um homem morra em pecado mortal sem reparação condigna, e podendo satisfazer o não fez, vem o demônio arrancar-lhe a alma do corpo com tanta angústia e tribulação, como só a quem o experimentou é dado bem conhecer.
E todos os talentos e poder, ciência e sabedoria, que julgava ter, lhe serão tirados (Mc 4, 25). E os parentes e amigos tomam conta da herança, e entre si a dividem, e depois dizem: 
- Maldita seja a sua alma, pois mais nos pudera ter deixado, mais pudera ter adquirido para nós do que aquilo que adquiriu.
Entretanto os vermes lhe vão comendo o corpo. E assim perde a alma e o corpo nesta vida que é breve, e cai no inferno, onde sem fim será atormentado.

Súplica final e Bênção

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amem.

A todos quantos receberem esta carta, eu, o irmão Francisco, menor servo vosso, vos peço e suplico pela caridade que é Deus (Jo 4, 16), e com o desejo de vos beijar os pés, que vos sintais obrigados a acolher, observar e guardar com humildade e amor estas palavras e as demais de nosso Senhor Jesus Cristo. E todos aqueles e aquelas que as receberem com benevolência, lhes derem atenção e enviarem cópias a outros, se no seu cumprimento perseverarem até ao fim (Mt 24, 13), que sobre eles venha a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amem

(4) Francisco liga o jejum e a penitência ao amor à Igreja católica. São frases dirigidas contra os cátaros, que pregando uma ascese radical se queriam separar da igreja pecadora, dos seus sacramentos e sacerdotes.

(Tradução: Editorial Franciscana)


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